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riscos_e_rabiscos

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Assalto À Mão Armada

 

A rua da minha mãe sempre foi tranquila, movimentada e com gente a passar. Pessoas que ali vivem e pessoas que ali passam ocasionalmente. Jovens e crianças que vão para as escolas enfeitam as ruas diariamente.

 

Toda a vida houve brincadeiras no canto abrigado e convidativo debaixo das janelas da minha mãe. Eram tardes de Macaquinho do chinês, Mamã dá licença, rodas e jogos de bola que partiam os vidros da minha vizinha S. e os da minha mãe. E o encontro marcado pelos rapazes, depois do café fechar, para desabafarem as suas mágoas e falarem sobre as suas conquistas amorosas madrugada fora.

 

Anos mais tarde, resolveram “roubar-nos” um bocado do nosso cantinho, o espaço de brincadeiras preferido: colocaram uma cabine telefónica no meio como se de um monumento importante se tratasse. Revolta geral da miudagem. Mas como as crianças têm uma mente engenhosa, rapidamente aquilo foi incluído nas suas brincadeiras.

 

A rua tem meia dúzia de lojas que, ainda hoje, se mantêm. Mudanças de ramo, mudanças de dono mas três delas sempre se mantiveram fiéis ao destino traçado: o café, a padaria e o talho.

Havia ainda uma peixaria que acabou por fechar. Mais recentemente, voltou a abrir, desta vez, como florista.

 

Há poucos anos, fizeram um bairro de realojamento perto da rua da minha mãe. Escusado será dizer que o nível de segurança aumentou drasticamente – só o carro do meu irmão foi assaltado duas vezes e o carro de um vizinho foi pontapeado por prazer até ficar irreconhecível - , as ruas transformaram-se em lixeiras em ponto pequeno e a passagem de sujeitos de ar suspeito é constante (para ir comprar droga). O bairro fica coladinho à porta de uma escola secundária. Depois não se queixem da droga nas escolas!

 

Soube hoje que a Dona F., a florista, foi assaltada no sábado. À mão armada. Três indivíduos de raça negra invadiram o seu parco espaço, fecharam-lhe a porta e depositaram uma arma no balcão. Ela estava acompanhada com outra senhora e ambas tentaram resistir. Mas perante uma arma apontada a nós, a nossa resistência rapidamente se dissolve. Levaram-lhe o dinheiro todo e tabaco.

 

O mais gritante é que o café é no outro lado da rua e que, agora, tem sempre gente à porta a fumar. A falta de sorte foi tanta que, nessa altura estava tudo enfiado no café a ver o jogo de futebol! Ninguém deu por nada.

Da janela da minha mãe vê-se perfeitamente a loja mas como era de noite, as persianas estavam descidas. Era impossível apercebermo-nos de alguma coisa.

No entanto, fiquei muitíssimo triste por não ter podido ajudar. Sinto que poderia ter feito algo. Mas nem sei como…